segunda-feira, 11 de julho de 2011

Revista Garatuja Quadrinhos no 1

por Márcio Zago

A revista postada abaixo foi resultado de uma oficina de História em Quadrinhos realizada em 2006. Ao todo foram vinte jovens atendidos, por um período de três meses. Apesar do pouco tempo (somente uma aula por semana), foi possível executar um projeto em que os participantes passassem por todas as etapas de realização de um gibi. O projeto chamou-se Da nossa História aos Quadrinhos, onde a proposta era criar histórias voltadas a nossa realidade. A oficina começou com aulas teóricas sobre a linguagem dos quadrinhos e disponibilização do acervo de gibis do Garatuja para consulta dos participantes. Depois vieram roteiro, desenvolvimento do personagens e diagramação na página. A arte final foi feita com bico de pena ou canetinha nanquim. Alguns usaram o computador para colorir, outros pintaram a mão. Aconteceram também visitas monitoradas a gráfica que imprimiu a revista, onde os amigos Marcelo Mitt e Patrícia demonstraram aos jovens as etapas utilizadas no sistema de impressão offset. A oficina foi realizada através da ASSAOC e das Oficinas Culturais, patrocinadas pela Secretaria de Estado da Cultura de São Paulo. A impressão da revista foi patrocinada pela Prefeitura da Estância de Atibaia que distribuiu-as aos alunos das escolas municipais. Segue o texto que escrevi para a apresentação da revista:
Da nossa história aos quadrinhos.
Diferente das demais artes, a História em Quadrinhos não teve sua origem ou desenvolvimento associado à cultura burguesa. Pelo contrário, desde seu surgimento - que os americanos juram ser em 1895 com The Yellow Kid – ou mesmo antes disso, quando a linguagem apenas se esboçava, as narrativas quadrinizadas sempre foram dirigidas às camadas mais simples da população. Seu texto sucinto, e desenhos facilmente compreendidos, tendendo ao humor, acertaram em cheio no gosto popular. Bastou o empurrãozinho de dois magnatas americanos, ligados ao jornalismo, com excelente faro para transformar tudo em dinheiro, e estava criada uma das maiores indústrias de entretenimento que se tem notícia. Embora chamada de Nona Arte a História em Quadrinhos nunca foi levada muito a sério, principalmente pela elite intelectualizada. Essa associação com o cômico (comix), e a estreita ligação com a cultura de massa talvez seja a causa dessa indiferença em relação às outras artes, ditas mais nobres, como pintura, escultura, etc. Lógico que mantendo as especificidades da linguagem, o quadrinho já deu artistas a altura de Rodin, Caravagio ou Picasso, aliás, Picasso era um apreciador confesso das aventuras de Winnie Winkle. Na década de trinta, na chamada época de ouro dos quadrinhos, surge uma geração de autores buscando novas possibilidades estéticas e qualidade na narrativa. Para eles quadrinho não eram apenas humor e entretenimento. Surgem clássicos como Flash Gordon, Dick Tracy , Príncipe Valente, O agente X-9, desenhistas como Hall Foster, Alex Raymond, Milton Caniff, e roteiristas como Dashiell Hammett e Al Capp. O quadrinho nunca mais seria o mesmo. De lá pra cá uma infinidade de autores, desenhistas e personagens surgiram, e a maioria deles desconhecidas do grande público. Vale a pena citar: Tintin de Hergé; Spirit de Will Eisner; Moebius; Guido Grepax; Robert Crumb; Corto Maltese de Hugo Pratt; Frank Miller; Neil Gaiman; Alan Moore; Drunna; Milo Namara e os brasileiros Ziraldo (Pererê); Flávi Colin; Jayme Cortez; Jô Oliveira; Lourenço Mutarelli e outros. Agora temos a influencia oriental dos mangas.  E aí começa uma outra história... ao divulgar a realização dessa oficina, aberta aos interessados em quadrinhos, a grande parcela das inscrições eram voltadas ao mangá. De desenvolvimento paralelo ao quadrinho ocidental, o mangá tem sua origem mais remota também como uma necessidade de expressão narrativo-figurativas, sendo cunhado mangá através da arte xilográfica do Ukiyo-ê, no trabalho de Hokusai, recebendo mais tarde influências dos quadrinhos americanos no fim do século XIX e início do século XX, transformando-se num grande filão comercial no Japão de hoje, alavancados pelas atividades paralelas como os animês, garage kit, cosplays, vídeo-games, trilhas sonoras, merchandising, etc. Recentemente a produção japonesa volta-se para o ocidente, arrebatando milhões de apreciadores e ganhando no Brasil proporções gigantescas. Fenômeno pouco estudado, o Mangá caracteriza-se por histórias com enredos quilométricos, as chamadas sagas, com temáticas puramente ligadas à cultura japonesa, e estética própria, caracterizadas pelos personagens de olhos grandes e brilhantes lançadas pelo desenhista Tezuka Osamu. De leitura rápida, muito em função dos ideogramas, o mangá que é editado no Japão, mais se assemelha a enormes listas telefônicas, impresso em papel jornal a um custo muito baixo. Aí está, a meu ver, a primeira qualidade dos Mangás. As histórias são enormes, com muitas páginas e muitos desenhos. Para quem enfrenta como eu, dificuldade em conseguir a tão sonhada elaboração e acabamento em trabalhos, principalmente feitos por jovens, deparar com roteiros enormes, cheios de fantasia e citações históricas, é no mínimo, animador, sem contar na qualidade dos desenhos, que obviamente vem da quantidade. Para essa revista, como denota o próprio espírito de oficina, tem de tudo: da história tipicamente feminina pela forma e conteúdo; até a temática existencialista e violenta mais presente no universo masculino, passando pelo humor, pelo imaginário popular das lendas brasileiras, pela situação urbana e rural, pela aventura quase cinematográfica, pelo religioso e pelo fúnebre. São reflexos da alma de nossos jovens, que devolvem, através de recados muito claros, anseios e esperanças. Particularmente, depois de cada oficina, onde por breve período convivo com eles, sinto-me revitalizado. Apesar da triste realidade apresentada pelo mundo adulto, os jovens trazem em si a viabilidade da existência, expressa a cada momento, pois ainda mantém nossa mais importante fonte de vitalidade: o sonho humano. 

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