domingo, 2 de dezembro de 2018

MAUS, de Art Spiegelman, o melhor quadrinho de todos os tempos.




















Nada mais atual que revisitar o maior quadrinho de todos os tempos: MAUS, de Art Spiegelman. Está tudo lá: O preconceito, a maldade humana, a negação das minorias, a manipulação e a mentira como verdade. Lembra-te alguma coisa? A qualificação “o melhor quadrinho de todos os tempos” não é minha, e sim dos inúmeros críticos e conhecedores profundo da arte quadrinizada, reforçado com o Prêmio Pulitzer, de 1992. Com MAUS o quadrinho passa a ser, definitivamente, arte.  Impossível percorrer suas páginas sem conter as lágrimas que escorrem furtivas pelo rosto. E não é só tristeza, por incrível que possa parecer, o autor arranca alguma situação irônica do maior e mais triste período histórico da humanidade: o holocausto. Seu trabalho é autobiográfico e percorre esse período através do depoimento de seu pai, que viveu na carne as agruras da guerra como prisioneiro do campo de concentração de Auschwitz. Na obra, os judeus são ratos (em alemão: maus), os nazistas gatos, os franceses sapos, os poloneses porcos, os americanos cachorros, e por aí vai, no melhor estilo dos animaizinhos representando gente, comum nos quadrinhos e nas animações. Mas não se iludam com o aparente uso de antropomorfismo para “amenizar” a obra. Até aí tem um forte apelo simbólico ao tratar os judeus como ratos, ao mesmo tempo em que questiona o ratinho Mickey Mouse, símbolo do consumismo americano. A associação do povo judeu aos ratos foi usada à exaustão pelos nazistas para desqualificar a raça e justificar o que aconteceria depois. Logo no inicio da obra o autor destaca uma frase de Adolf Hitler: “Os Judeus são indubitavelmente uma raça, mas eles não são humanos.” Tudo isso é assustadoramente atual, e nos mostra as semelhanças entre aquele período inicial e os dias de hoje, quando todos achavam que pequenos delitos jurídicos e intimidações por parte de quem detém o poder, não levariam a nada... E deu no que deu. MAUS, como todo clássico, é para ser lido e relido. Sua profundidade temática e até estética (tem muitas sutilezas nos desenhos), podem ser vistas pelo prisma psicológico (sua relação com pai), histórico, literário, etc. Daí sua dificuldade inicial em achar o seu lugar nas prateleiras das livrarias: Na sessão quadrinhos? História? Diversão? Ficção? MAUS é obra prima, e como tal, qualquer tentativa de enquadra-lo é dispensável.

segunda-feira, 25 de setembro de 2017

O estranho mundo de Zé do Caixão, um clássico

Acervo Garatuja





















Em janeiro de 1969, surgia nas bancas de São Paulo, e depois no Brasil inteiro, a revista em quadrinhos O Estranho Mundo de Zé do Caixão, que era o título de um dos filmes mais famosos de José Mojica Marins, o intérprete de Zé do Caixão. Esse gibi surgiu graças ao genial R. F. Lucchetti, roteirista e idealizador do projeto. A revista se tornaria um ícone do quadrinho nacional, graças às inovações que já vinham desde as tentativas anteriores de Lucchetti e do desenhista Nico Rosso, com a revista A Cripta - outro divisor de águas do quadrinho de Terror nacional. Mas em O Estranho Mundo de Zé do Caixão a dupla foi extremamente feliz. As inovações começavam no tamanho da revista, totalmente diferente do formato das demais revistas de quadrinhos publicadas na época. Era maiores e nas 52 páginas internas uma série de novidades que as tornariam únicas. A começar pela temática genuinamente brasileira. Sem as influências do terror europeu, as histórias vinham do imaginário popular brasileiro, ligado à magia negra, à macumba e aos rituais satânicos, com personagens e tipos físicos facilmente identificáveis com o nosso povo. O desenho primoroso de Nico Rosso e o uso acentuado do meio tom valorizavam o enredo, criando um clima “noir” e imprimindo maior dramaticidade à história. A revista trazia ainda a figura do narrador em fotografia, e não desenhado como era comum. Nesse caso, o Zé do Caixão era o próprio narrador. Trazia ainda a adaptação em fotonovela do filme O Estranho Mundo de Zé do Caixão. Tudo isso compunha a melhor adaptação já feita do cinema e da televisão para os quadrinhos, sem perder a essência da linguagem quadrinizada. A ideia da revista surgiu de Lucchetti, que um ano antes escrevera os scripts do programa de televisão apresentado por José Mojica Marins aos sábados na TV Tupi de São Paulo. Com os originais da revista na mão, que levava o mesmo nome do programa televisivo, Lucchetti inicia uma exaustiva peregrinação pelas editoras da época. A Editora Prelúdio acaba aceitando o desafio. E, mesmo custando mais que as demais revistas, acabou tornando-se um grande sucesso. Porém - e sempre há um porém, algumas situações anteciparam o fim da revista. Os bastidores da História em Quadrinhos estão repletos de situações ligadas a traições, disputas e puxadas de tapetes, desde os primórdios da linguagem, como a conhecida disputa entre Pulitzer e William Hearst, passando pela extinção da Editora Outubro e outras histórias. No quarto número de O Estranho Mundo de Zé do Caixão, Lucchetti e Nico Rosso foram surpreendidos pela noticia da venda da revista para outra editora. O negócio foi feito pelo próprio José Mojica, que aceitou, segundo suas próprias palavras a Lucchetti, uma proposta irrecusável. O fato é que a mudança causou desconforto geral e antecipou seu fim. O número seguinte da revista, publicado pela Editora Dorkas, ainda continha matéria da dupla Lucchetti/Nico Rosso, mas sem os devidos créditos. As mudanças da nova editora não tiveram o mesmo sucesso dos números anteriores e a revista parou depois de publicar somente mais duas edições. Esse fato contribuiu para a falência da Editora Prelúdio, que havia investido fortemente no projeto ao adquirir grande quantidade de papel para sua impressão. Após acordo entre os envolvidos, uma segunda tentativa de publicação a revista aconteceu em 1970. Dessa vez, com o nome Zé do Caixão no Reino do Terror, uma vez que o nome anterior pertencia agora a Editora Dorkas. Não deu certo, a galinha dos ovos de ouro estava morta. No acervo do Garatuja guardo com carinho essas raridades. Algumas delas adquiri do próprio amigo Rubens Francisco Lucchetti, que fez anotações na revista salientando esses fatos. Essas revistas são, sem dúvida, clássicos da linguagem dos quadrinhos. Esse termo, apesar da infinidade de definições, traduz com eficiência a sua importância: “Clássico é uma obra que, por sua qualidade tem valor reconhecido, constitui um modelo e é uma referência.”




quinta-feira, 7 de setembro de 2017

O talento do Affonso...



















Enquanto arrumava o atelier me deparei com uma pasta que já guardo há algum tempo. Nela uma história em quadrinhos em processo, pela metade, feito por um garoto que um dia bateu na porta do Garatuja. Com a pasta embaixo do braço, tímido, disse que gostaria de mostrar alguns desenhos que havia feito. Ele soube do Garatuja através de uma professora da escola onde estudava. Na época não havia nenhum projeto em andamento que pudesse encaixá-lo. Há pouco tempo havia encerrado a última oficina voltada a interessados de baixa renda e não havia nada em vista para os próximos meses. Affonso era de família humilde, sem recursos para bancar uma mensalidade, e diante de seu talento, me prontifiquei em ajudá-lo a concluir a historia em quadrinhos. Faria isso sem cobrar nada. A história estava só no lápis, mas dava para ver seu enorme talento: traço preciso, noção de enquadramento, timing narrativo e uma história interessante.

Caderno cheio de roteiros...
Apesar dos visíveis condicionamentos, o roteiro foi o que mais me chamou atenção, principalmente pela qualidade da trama. Affonso deveria ter uns 15, 16 anos e de forma intuitiva já dominava a linguagem com segurança. Minha intenção era ajudá-lo a terminar a história que havia começado e imprimi-la de forma caseira, tipo um fanzine, para que pudesse vender mais tarde aos colegas e professores da escola. Reservei os sábados à tarde para ele e nesse período passei as primeiras noções da técnica do nanquim, da canetinha e do pico de pena. Depois de marcar presença por alguns sábados Affonso começou a faltar, talvez por falta de grana para a condução. Até que desapareceu de vez. Uma pena! Fiquei com seu material mas não tenho seu endereço. Em situações como essa fica clara a importância dos apoios institucionais, via convênios ou editais, para as iniciativas culturais. Sem elas muitos Affonsos ainda deixarão de lado seu talento para cuidar da sobrevivência.





terça-feira, 4 de abril de 2017

Misterix, de Paul Campani















Entre as raridades do acervo de gibis do Garatuja estão alguns números da revista Misterix, personagem criado pelo italiano Paul Campani. Misterix, embora pareça um super-herói, não tem poder algum. Sua força vem dos equipamentos científicos que utiliza, como a pistola atômica. Ele é um inventor inglês que usa a ciência para combater o crime. Esse personagem era publicado em longas estórias pela revista Raio Vermelho, produzida e editada pela Editora Abril da Argentina. Em 1950 a Abril começa suas atividades no Brasil publicando a mesma revista. Meses depois passa a produzir também O Pato Donald. Raio Vermelho não emplacou por aqui, parando três anos depois. Tentam então destacar o personagem mais popular numa revista própria, o Misterix,  mas também não vingou. Talvez a dificuldade estivesse no fato das estórias não concluírem no próprio número, ficando sempre pra edição seguinte. Ao todo foram doze números que saíram em 1953. Além de Misterix, a revista trazia outros personagens criados por Paul Campani (ou que ele ajudou a desenvolver) como Tita Dinamite, Bull Rockett e Gran Diablo, todos com traços muito parecidos com os de Milton Caniff. O grande trunfo da revista foram às magníficas capas desenhadas pelo Jayme Cortez. Só por isso já vale a pena...











sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

Os quadrinhos de Alain Voss

Alain Voss foi um quadrinista de primeira. Na década de sessenta realizou O Careca, gibi cultuado (penso eu) muito mais pelo inusitado que envolveu a produção, que o trabalho em si. A versão que circula é uma edição fac-símile publicada pela Comix Club em 1995. Nela, na seção de cartas, Alain Voss informa ao editor Worney A. Souza as circunstancia da criação da revista. Diz ele que tudo foi realizado em um mês: Criação do personagem, roteiro e desenhos. Depois de tudo pronto e já impresso, a gráfica desistiu do projeto e destruiu toda a edição, de 8.000 unidades. Nem o próprio autor ficou com algum exemplar, mas alguém ficou, e a partir dele foi feito a versão fac-símile. Anos depois Alain Voss desenharia duas capas de discos para Os Mutantes: Jardim Elétrico, de 1971 e Mutantes e Seus Cometas no País do Baurets, de 1972. Ambos de estilo marcadamente psicodélico, próprio da época.

















































Na década de setenta, fugindo da ditadura militar, volta a morar na França, sua terra natal. Lá trabalha na revista Métal Hurlant, a mais importante publicação francesa voltada aos quadrinhos. Seus colegas de trabalho eram nada menos que Moebius, Enri Bilal e Richard Corben. Nos anos oitenta volta ao Brasil, onde publica nas revistas Inter-Quadrinhos e na ótima Monga – A Mulher Gorila, que infelizmente teve um único número. É de lá que retirei A Notre Image postado abaixo. Nessa história nada faz lembrar os primeiros trabalhos, como O Careca, que trazia forte influencia de Jack Kirby. O que nota-se é um “sotaque” do quadrinho europeu, como não poderia deixar de ser, visto sua origem e formação profissional. Segundo a Wikipédia, “em 1989, ganhou o prêmio de melhor desenhista nacional da primeira edição do Troféu HQ Mix. No ano seguinte, uma exposição sobre seu trabalho apresentada no Museu da Imagem e do Som ganhou o Troféu HQ Mix de melhor exposição”. Faleceu em 2011, aos 65 anos.








domingo, 25 de dezembro de 2016

Capitão 7


Acervo Garatuja













Ele foi o primeiro super-herói brasileiro da televisão e um dos grandes fenômenos televisivos de todos os tempos, batendo sem dó em muitos heróis americanos. Mistura de Capitão Marvel com Super Homem, o nome veio do próprio canal onde era exibido o seriado: A TV Record - Canal 7. O sucesso foi tanto que os capítulos passaram a ser diários, permanecendo no ar de 1954 a 1966. O personagem narra às aventuras de Carlos, o menino que ganha poderes de um alienígena e, adulto, passa a enfrentar criminosos da Terra e do espaço. Criado e interpretado pelo ator Ayres Campos, o herói foi um sucesso na televisão graças à campanha promocional que incluía produtos e marcas licenciadas. Tinha até fã-clube (dizem que o primeiro da televisão brasileira) e o Clube do Capitão 7, onde as crianças juntavam as tampinhas do Leite Vigor para se tornar associado.
Pena que quase nada sobrou desse tempo. Os primeiros seriados eram ao vivo, e mais tarde, com a chegada do VideoTape passaram a ser gravados antes da transmissão, mas é bom lembrar que o VideoTape era caro e não havia a intenção de  guardá-lo como registro. Talvez os seriados que sobraram, assim como boa parte do acervo da TV Record, tenham sidos queimados no incêndio que ocorreu na emissora em 1966. Reza a lenda que sobraram alguns registros do seriado guardados pelo próprio Ayres Campos, já falecido. Anos depois de sua estréia na televisão o Capitão 7 surge também na história em quadrinhos publicada pela editora Continental/Outubro. O primeiro número saiu em 1959. Lá o personagem ganhou novos poderes graças a Jaime Cortez. Os argumentos eram de Gedeone Malagola, Helena Fonseca e Hélio Porto e os desenhos, em sua maioria, de Getúlio Delfin, mas desenhava também o próprio Gedeone, Juarez Odilon, Osvaldo Talo e outros. Só feras. Destaque são as capas primorosas desenhadas pelo Jayme Cortez em muitas edições. A história em quadrinhos também foi um sucesso. Publicou cerca de quarenta números e dois almanaques, hoje raridades. O fim da publicação foi melancólico: “Quando a D.C. exigiu que a Capitão 7 trocasse o peito azul pelo verde tropical, para não atrapalhar as vendas do Super-homem, Ayres não aceitou e peitou. "Isso não," protestou indignado, "meu herói foi muito mais herói do que qualquer "Super-homem"! Os norte-americanos não puderam com o irredutível Ayres, mas a editora Abril, sim, porque o Capitão 7 era publicado pela editora Outubro, acontece que a Abril registrou o nome de todos os meses do ano, processando a editora, que fechou as portas em 1964, e não pode mais pagar os direitos do personagem.”* Abaixo a história Capitão 7 contra os homens de Cristal, desenhado pelo Getúlio Delfin

*Rod Gonzalez no blog Quadros ao Vivo.










sexta-feira, 13 de março de 2015

Terra de Gigantes














Li As Viagens de Gulliver quando criança. Anos mais tarde acompanhei com interesse o seriado televisivo Terra de Gigantes, exibido na década de setenta. Não perdia um. Em comum a desproporção entre seres humanos e o fascínio que essa possibilidade me despertava. Acho que muita gente, quando criança, já se encantou com isso. A hipótese de viver com seres ou objetos de diferentes tamanhos está presente no imaginário coletivo... Desde os contos de fadas, como na fábula João e o Pé de Feijão. Nos gibis, como não poderia deixar de ser, o tema foi bastante explorado.  Viagem ao Interior de uma Moeda, publicado pela primeira vez em 1933, talvez seja a mais conhecida e cultuada história em quadrinhos sobre o tema.  Com ela surgia um novo herói: Brick Bradford. Nessa história o herói é chamado para auxiliar o professor Kopak que acabara de descobrir um novo elemento químico, que batizou de Kopakium, capaz de miniaturizar qualquer coisa. A intenção do cientista era reduzir uma nave, e alguns tripulantes, até o tamanho de um átomo para conhecer o interior de uma moeda. Ainda nos preparativos da viagem, Beryl (namorada de Brick), e Dr Ego (inimigo do Dr Kopak), entram as escondidas na nave e também são reduzidos. Na viagem encontram mundos paralelos habitados por outras civilizações. No Brasil também tivemos nossos heróis enfrentando a desproporção.

O mais cultuado é Jony Star em No Mundo dos Gigantes. Gibi editado nos anos setenta e hoje raridade. Apesar do nome, é brasileiríssimo. Criado pelo desenhista, roteirista, argumentista e editor Gedeone Malagola e com desenhos de Paulo Hamasaki e Moacyr Rodrigues, no Mundo dos Gigantes saiu em dois volumes das Edições GEP, o de número 16 e 23. Assim como nas aventuras de Brick Bradford a intenção dos heróis brasileiros também eram de penetrar no interior de uma moeda, só que um acidente inicial fez com que os tripulantes da nave Argus 1 permanecessem para sempre com 15 cm de altura. Com esse tamanho  Jony Star, sua noiva Evânia e os cientistas Gederson, Taj e Matsu enfrentam ladrões de jóias, monstros, ratos, insetos, cientistas loucos, robôs, mágicos e até o Homem Átomo, todos habitantes da própria Terra  e, obviamente, gigantes para eles que passaram a medir 15 cm de altura. Outro gibi nessa linha, também brasileiro, é O Homem Microscópico, de Mario Cândia - 1967. Não conheço, mas segundo informações obtidas na internet, a história remete ao filme Viagem Fantástica, de Richard Fleischer- 1966. Nesse filme os cientistas desenvolvem tecnologia para o encolhimento da matéria, só que o efeito dura pouco. A trama do filme é em torno da tarefa dos cientistas, reduzidos a milímetros, em desobstruir um coágulo no cérebro de um agente da CIA antes que o efeito acabe e eles voltem ao tamanho original. No gibi O Homem Microscópico, o cenário também é o corpo humano: Um cientista descobre um micróbio de forma humanóide e ele se torna um aliado em suas pesquisas. No acervo do Garatuja os alunos podem conhecer essas revistas.