Os gibis são, para mim, as peças mais interessantes do acervo do Garatuja. Muitos eu comprei ainda criança ou jovem e guardo até hoje; outros fui adquirindo ao longo da vida. É o caso de um gibi chamado Papagaio. Por volta dos anos oitenta, encontrei o primeiro exemplar, não me lembro exatamente onde. Chamaram-me a atenção o nome e o fundo vermelho da capa. Li, guardei e acabei deixando-o esquecido num canto. Bem mais tarde, ao pesquisar com mais cuidado os gibis que possuía, descobri fatos curiosos sobre ele. Produzida por jovens do Colégio Equipe, nos anos setenta, a revista foi um verdadeiro celeiro de talentos. Foi ali que surgiram os primeiros trabalhos de integrantes da banda Titãs que, antes da música, desenhavam para o gibi. Além de Arnaldo Antunes, Marcelo Fromer, Branco Mello, Tony Bellotto e Nando Reis, a revista também trazia desenhos (ainda bem simples) de dois nomes que mais tarde se tornariam artistas plásticos consagrados: Leda Catunda e Antônio Malta, um dos editores da publicação. Entre todos os colaboradores, apenas Marcatti, que não estudava no Equipe, seguiu carreira como quadrinista. O Papagaio é hoje uma raridade, um verdadeiro achado arqueológico da cultura jovem brasileira dos anos setenta. Presente em pouquíssimos acervos, principalmente com os três números realizados, a revista integra o acervo do Garatuja e está disponibilizadas aos interessados para consulta no local.
domingo, 14 de dezembro de 2025
segunda-feira, 22 de abril de 2024
Quadrinhos e literatura no Festival Literário 2024
No último sábado tive o prazer de participar mais uma vez do Festival Literário de Atibaia. Nesta terceira edição, apresentei uma proposta que visava explorar a interação entre história em quadrinhos e literatura, uma poderosa ferramenta de estimulo a leitura. Tratamos do desenvolvimento histórico das histórias em quadrinhos desde suas origens, quando surgem as primeiras narrativas e personagens, até seus aspectos estruturais como diagramação, enquadramento, balões, legendas, onomatopeias, e outros elementos da linguagem. Depois, a prática. O desafio foi explorar a variação linguística ao criar uma versão quadrinizada tendo como base um conto de Carlos Drummond de Andrade. Um conto nada favorável a tarefa. Uma exposição de histórias em quadrinhos também fez parte da proposta e foi montada no saguão do Itá Cultural. O material tinha como tema as versões quadrinizadas de grandes clássicos da literatura universal e abrangia diferentes épocas e estilos, proporcionando uma visão cronológica dessa interessante forma de abordagem literária. Foi uma experiência enriquecedora e inspiradora para mim e, acredito, para todos os presentes. Aproveito para agradecer a Secretaria de Cultura, a todos os funcionários envolvidos e aos participantes do workshop.
terça-feira, 14 de junho de 2022
Festival Literário 2022
Dia 21 de maio aconteceu a oficina de roteiro para História
em Quadrinhos dentro da programação do Primeiro Festival Literário de Atibaia. A
inserção da linguagem num festival voltado a literatura é de suma importância: Agrega
os aficionados, insere a linguagem como importante produto cultural e dá credibilidade
ao institucionalizar os quadrinhos numa programação oficial da Prefeitura (caso
raro de acontecer!). Na oficina tive a oportunidade de trabalhar os conceitos
básicos da produção de um roteiro com participantes de diversas idades e interesses,
dentro do melhor espírito de “oficina”, onde a troca de experiência entre os
participantes é o que mais importa. No final, produzimos parte de um roteiro a
partir de uma pequena historinha inventada por uma criança de seis/sete anos.
Foi ótimo! Que outras oficinas aconteçam. (Crédito das fotos: Prefeitura da Estância de Atibaia/SECOM)
quinta-feira, 15 de julho de 2021
Como foi a Exposição de História em Quadrinhos
Instituto Garatuja realizou workshop com o quadrinista Aluísio Cervelle.
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| No centro Aluísio Cervelle ao lado da esposa e desenhista Érica Yamaguchi |
Em 2019 o Instituto Garatuja realizou mais um evento voltado à linguagem dos quadrinhos. Dessa vez recebemos o desenhista Aluísio Cervelle, e o workshop “A Produção de HQs”, onde ele passou suas experiências como realizador, ilustrador e quadrinista. Foi uma ótima oportunidade de conhecer e trocar ideia com um artista que vive profissionalmente do desenho e de forma independente. O processo de criação, realização, divulgação e distribuição foram alguns dos temas abordados nesse encontro. O workshop foi gratuito e voltado a todos os interessados, sem limites de idade. Aluísio Cervelle Santos é Bacharel em Programação Visual pela Universidade Estadual Paulista. Entre suas publicações estão Zone Lords #1, de 2017, DROPDEAD, de 2015, (Prêmio PROAC), QUAD 1, 2 e 3 (antologia). Além de ter trabalhado com ilustração no Brasil e no exterior. Recebeu o Prêmio HQMIX de Melhor Publicação de Grupo “QUAD 2”, de 2014, além do Prêmio Abril de Jornalismo Melhor Infográfico, 2010 - Melhor Criação de Personagem MOJIZU (EUA). Com os artistas Eduardo Schaal, Diego Sanches e Eduardo Ferigato, Aluísio integra o coletivo Quad Comics, que publica uma série de quadrinhos de ficção cientifica independente. Esse workshop integrou o Projeto “Garatuja – 35 anos de Arte e Cultura em Atibaia”, realização do Governo do Estado de São Paulo, Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo e Instituto de Arte e Cultura Garatuja, através do PROAC.
Os Quadrinhos na Região Bragantina
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| Cartaz e programa de 1996 |
domingo, 2 de dezembro de 2018
MAUS, de Art Spiegelman, o melhor quadrinho de todos os tempos.
Nada mais atual que revisitar o maior quadrinho de todos os tempos: MAUS, de Art Spiegelman. Está tudo lá: O preconceito, a maldade humana, a negação das minorias, a manipulação e a mentira como verdade. Lembra-te alguma coisa? A qualificação “o melhor quadrinho de todos os tempos” não é minha, e sim dos inúmeros críticos e conhecedores profundo da arte quadrinizada, reforçado com o Prêmio Pulitzer, de 1992. Com MAUS o quadrinho passa a ser, definitivamente, arte. Impossível percorrer suas páginas sem conter as lágrimas que escorrem furtivas pelo rosto. E não é só tristeza, por incrível que possa parecer, o autor arranca alguma situação irônica do maior e mais triste período histórico da humanidade: o holocausto. Seu trabalho é autobiográfico e percorre esse período através do depoimento de seu pai, que viveu na carne as agruras da guerra como prisioneiro do campo de concentração de Auschwitz. Na obra, os judeus são ratos (em alemão: maus), os nazistas gatos, os franceses sapos, os poloneses porcos, os americanos cachorros, e por aí vai, no melhor estilo dos animaizinhos representando gente, comum nos quadrinhos e nas animações. Mas não se iludam com o aparente uso de antropomorfismo para “amenizar” a obra. Até aí tem um forte apelo simbólico ao tratar os judeus como ratos, ao mesmo tempo em que questiona o ratinho Mickey Mouse, símbolo do consumismo americano. A associação do povo judeu aos ratos foi usada à exaustão pelos nazistas para desqualificar a raça e justificar o que aconteceria depois. Logo no inicio da obra o autor destaca uma frase de Adolf Hitler: “Os Judeus são indubitavelmente uma raça, mas eles não são humanos.” Tudo isso é assustadoramente atual, e nos mostra as semelhanças entre aquele período inicial e os dias de hoje, quando todos achavam que pequenos delitos jurídicos e intimidações por parte de quem detém o poder, não levariam a nada... E deu no que deu. MAUS, como todo clássico, é para ser lido e relido. Sua profundidade temática e até estética (tem muitas sutilezas nos desenhos), podem ser vistas pelo prisma psicológico (sua relação com pai), histórico, literário, etc. Daí sua dificuldade inicial em achar o seu lugar nas prateleiras das livrarias: Na sessão quadrinhos? História? Diversão? Ficção? MAUS é obra prima, e como tal, qualquer tentativa de enquadra-lo é dispensável.



















