segunda-feira, 25 de setembro de 2017

O estranho mundo de Zé do Caixão, um clássico

Acervo Garatuja





















Em janeiro de 1969, surgia nas bancas de São Paulo, e depois no Brasil inteiro, a revista em quadrinhos O Estranho Mundo de Zé do Caixão, título de um dos filmes mais famosos de José Mojica Marins, o Zé do Caixão. Esse gibi surgiu graças ao genial R. F. Lucchetti, roteirista e idealizador do projeto. A revista se tornaria um ícone do quadrinho nacional, graças às inovações que já vinham desde as tentativas anteriores de Lucchetti e do desenhista Nico Rosso com a revista A Cripta - outro divisor de águas do quadrinho de terror nacional. Mas em O Estranho Mundo de Zé do Caixão a dupla foi extremamente feliz. As inovações começavam no tamanho maior da revista, totalmente diferente das demais revistas publicadas na época. Nas 52 páginas internas uma série de novidades que as tornariam únicas. A começar pela temática genuinamente brasileira. Sem as influências do terror europeu, as histórias vinham do imaginário popular brasileiro ligado à magia negra, à macumba e aos rituais satânicos, com personagens e tipos físicos facilmente identificáveis com o nosso povo. O desenho primoroso de Nico Rosso e o uso acentuado do meio tom valorizavam o enredo, criando um clima “noir”, imprimindo maior dramaticidade à história. A revista trazia ainda a figura do narrador em fotografia, e não desenhado como era comum. Nesse caso, o Zé do Caixão era o próprio narrador. Trazia ainda a adaptação em fotonovela do filme O Estranho Mundo de Zé do Caixão. Tudo isso compunha a melhor adaptação já feita do cinema e da televisão para os quadrinhos, sem perder a essência da linguagem quadrinizada. A ideia da revista surgiu de Lucchetti, que um ano antes escrevera os scripts do programa de televisão apresentado por José Mojica Marins aos sábados na TV Tupi de São Paulo. Com os originais da revista na mão, que levava o mesmo nome do programa televisivo, Lucchetti inicia uma exaustiva peregrinação pelas editoras da época. A Editora Prelúdio acaba aceitando o desafio. E, mesmo custando mais que as demais revistas, acabou tornando-se um grande sucesso. Porém - e sempre há um porém, algumas situações anteciparam o fim da revista. Os bastidores da História em Quadrinhos estão repletos de situações ligadas a traições, disputas e puxadas de tapetes, desde os primórdios da linguagem, como a conhecida disputa entre Pulitzer e William Hearst, passando pela extinção da Editora Outubro e outras histórias. No quarto número de O Estranho Mundo de Zé do Caixão, Lucchetti e Nico Rosso foram surpreendidos pela noticia da venda da revista para outra editora. O negócio foi feito pelo próprio José Mojica, que aceitou, segundo ele, uma proposta irrecusável. O fato é que a mudança causou desconforto geral e antecipou seu fim. O número seguinte da revista, publicado pela Editora Dorkas, ainda continha matéria da dupla Lucchetti/Nico Rosso, mas sem os devidos créditos. As mudanças da nova editora não tiveram o mesmo sucesso dos números anteriores e a revista parou depois de publicar somente mais duas edições. Esse fato contribuiu para a falência da Editora Prelúdio, que havia investido fortemente no projeto ao adquirir grande quantidade de papel para sua impressão. Após acordo entre os envolvidos, uma segunda tentativa de publicação a revista aconteceu em 1970. Dessa vez, com o nome Zé do Caixão no Reino do Terror, uma vez que o nome anterior pertencia agora a Editora Dorkas. Não deu certo, a galinha dos ovos de ouro estava morta. No acervo do Garatuja guardo com carinho essas raridades. Algumas delas adquiri do próprio amigo Rubens Francisco Lucchetti, que fez anotações na revista salientando esses fatos. Essas revistas são, sem dúvida, clássicos da linguagem dos quadrinhos. Esse termo, apesar da infinidade de definições, traduz com eficiência a sua importância: “Clássico é uma obra que, por sua qualidade tem valor reconhecido, constitui um modelo e é uma referência.”




quinta-feira, 7 de setembro de 2017

O talento do Affonso...



















Enquanto arrumava o atelier me deparei com uma pasta que já guardo há algum tempo. Nela uma história em quadrinhos em processo, pela metade, feito por um garoto que um dia bateu na porta do Garatuja. Com a pasta embaixo do braço, tímido, disse que gostaria de mostrar alguns desenhos que havia feito. Ele soube do Garatuja através de uma professora da escola onde estudava. Na época não havia nenhum projeto em andamento que pudesse encaixá-lo. Há pouco tempo havia encerrado a última oficina voltada a interessados de baixa renda e não havia nada em vista para os próximos meses. Affonso era de família humilde, sem recursos para bancar uma mensalidade, e diante de seu talento, me prontifiquei em ajudá-lo a concluir a historia em quadrinhos. Faria isso sem cobrar nada. A história estava só no lápis, mas dava para ver seu enorme talento: traço preciso, noção de enquadramento, timing narrativo e uma história interessante.

Caderno cheio de roteiros...
Apesar dos visíveis condicionamentos, o roteiro foi o que mais me chamou atenção, principalmente pela qualidade da trama. Affonso deveria ter uns 15, 16 anos e de forma intuitiva já dominava a linguagem com segurança. Minha intenção era ajudá-lo a terminar a história que havia começado e imprimi-la de forma caseira, tipo um fanzine, para que pudesse vender mais tarde aos colegas e professores da escola. Reservei os sábados à tarde para ele e nesse período passei as primeiras noções da técnica do nanquim, da canetinha e do pico de pena. Depois de marcar presença por alguns sábados Affonso começou a faltar, talvez por falta de grana para a condução. Até que desapareceu de vez. Uma pena! Fiquei com seu material mas não tenho seu endereço. Em situações como essa fica clara a importância dos apoios institucionais, via convênios ou editais, para as iniciativas culturais. Sem elas muitos Affonsos ainda deixarão de lado seu talento para cuidar da sobrevivência.